Comunicação negligenciada? Ou o que pode ser melhorado na comunicação entre médico e paciente?

Numa dimensão tão sensível como a da Saúde, e mais especificamente, na comunicação entre médico e paciente, o processo da comunicação entre estes interlocutores toma uma conotação extremadamente particular, impar. Diversos estudos demonstram que nem sempre essa atividade é realizada da melhor forma possível.

E o que pode ser feito para melhorar este processo tão singular de comunicação?

A complexidade que um processo simples pode atingir como a de emitir uma mensagem, passa pela escolha adequada das palavras assim como pela escuta ativa das necessidades do paciente.

Podemos ilustrar o processo de comunicação da seguinte forma:

Como vemos na figura, no processo onde se o emissor transmite uma mensagem a um receptor, apesar de parecer simples, existem alguns elementos que tornam essa atividade mais complexa como por exemplo a codificação / decodificação da mensagem e os ruídos que podem ser envolvidos nessa interação.

A codificação seria a escolha apropriada das palavravas pelo emissor (médico) e o próprio tom da mensagem, para que a mesma possa ser claramente entendida (decodificada) pelo paciente (receptor).

Com relação ao próprio conteúdo da mensagem, temos de convir que não há nada tão complicado na medicina que, se explicado em linguagem clara e simples, não possa ser entendido por qualquer leigo.

Ainda é importante lembrarmos que, como em todo processo de comunicação, quando existem lacunas, espaços vagos, e as pessoas apresentam uma tendência a preenche-los de forma inconsciente com as piores alternativas possíveis. Como se de alguma forma, o nosso senso de sobrevivência quisesse nos preparar para a eventual pior das catástrofes possíveis, para o apocalipse.

Assim, se na Comunicação entre médico e paciente, se as informações não são claras e completas, o paciente pode ficar com a sensação de que falta transparência. Daí, o que resta é desconfiança, reduzindo as chances de um correto diagnóstico, do respectivo sucesso na abordagem terapêutica, e outras eventuais decorrências.

Esse tema foi abordado pelo  professor David A. Shore, da Escola de Saúde Pública da Universidade de Harvard (fundador da The Harvard School of Public Health’s Trust Initiative), intitulou sabiamente seu livro com o nome “A Crise de Confiança na Área da Saúde” (The Trust Crisis in Healthcare, Editora Oxford) e aborda esta questão no capitulo 18 dessa publicação.

Podemos concluir dessa forma que a capacidade e competência específicas de um profissional médico não são separáveis das suas respectivas habilidades de comunicação. Não é uma troca. Umas não compensam a outra. Mas essas habilidades de comunicação podem e devem ser desenvolvidas para sanar esse gap e aumentar a satisfação, o sucesso dos tratamentos e diminuir a percepção de erro médico em virtude de falha ou negligência de diálogo apropriado.

Aqui e hoje, o cerne da questão é o conceito de que os médicos cuidam de doenças. Errado. Os médicos cuidam de pessoas.

O atendimento médico é uma interação humana entre médico e paciente, em um contexto específico que é o próprio sistema social. E essa interação deve estar (idealmente) firmemente alicerçada no melhor nível de confiança possível.  

Contraditória ou até paradoxalmente, essa confiança é vigorosamente reforçada, quando um médico explica o que sabe e o que não sabe, aquilo que já conseguiu descobrir e o que não, os eventuais pontos que ainda possam não estar claros, quais premissas ele pode explicar, quais outras ainda exigirão mais tempo, análise, observação ou mesmo pesquisa.

A maneira como um médico expressa suas recomendações influencia fortemente as reações, atitudes e escolhas de um determinado paciente, incluindo o aumento da adesão ao tratamento e a diminuição do potencial risco de entendimento ou interpretação de uma falha de comunicação como se fosse um “erro médico”.

E quando falamos de “maneira de se expressar”, estamos nos referindo a estilos de comunicação. Estilos estes (baseados principalmente em certas características psicológicas) que, inclusive e impreterivelmente, também mudam e se adaptam às condições do contexto.

A correta consciência do próprio estilo de comunicação, certamente irá nos ajudar a facilitar de sobremaneira esse diálogo entre médico e paciente.

E é justamente ai, que acredito que há uma considerável e importante margem potencial de melhoria no processo de comunicação entre médico e paciente, com possíveis e concretos ganhos para todas as partes.

Tudo depende da vontade, do autoconhecimento e do claro propósito em foco.

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